Banalizamos tudo que é óbvio, inclusive se for essencial para nossa sobrevivência

Em cada etapa de nossa vida buscamos algo que consideramos importante para nossa evolução, ou seja, estamos sempre atrás de alguma necessidade, são os nossos projetos de vida. Quando criança, buscamos ser igual nossas melhores referências e sonhamos ser aquilo que as pessoas valorizam, independente da possibilidade. Esse é o “sonho” mais autêntico que se pode ter (naika), pois ainda não existe julgamento se é bom ou ruim perante a sociedade. À medida que se vai construindo uma personalidade e se vai moldando diante da sociedade, esses “sonhos” começam a sofrer impactos diante da realidade de sobreviver por conta própria e cada vez mais, os desejos autênticos vão dando forma a desejos superficiais (gaika). A forma como se vive nessa fase da vida vai refletir na velhice, onde os “sonhos” já não existem mais, afinal de contas, a vida está chegando ao fim.

É interessante como vamos deixando de ser autênticos e vamos colocando filtros em nossas decisões. Ao longo da vida, usamos vários filtros que vão sendo ajustados de acordo com nossas necessidades (desculpas). Até mesmo essa necessidade é vista através de um filtro, pois não tem mais a autenticidade de quando criança e com isso, traz diversos prejuízos e frustrações. Esses filtros podemos comparar aos nossos processos de julgamento de valor. Se você parar um pouco e refletir sobre isso, verá o quanto deixou de aproveitar certos momentos enquanto eles aconteciam, por conta da busca constante das realizações. O julgamento cria um significado previamente concebido de acordo com o filtro que está sendo usado. Pode ser a forma como vê alguém que te fez mal ou talvez uma crise lombar que te paralisou quando seu “nervo pinçou”.

Começamos a tomar decisões futuras decorrentes de experiências passadas e deixamos de curtir o presente. Não é a toa que a população mundial está se tornando depressiva ou ansiosa ou ambas. Ficamos presos à experiência estática e não entendemos o porquê de não termos experiênias boas. A analogia seria comparar o momento de uma foto, onde você pode criar o que quiser e o de ver um vîdeo, onde cada momento é o momento. No caso, a foto seria o passado e o futuro, enquanto o vîdeo seria o presente. O fato é que o que traz vida é o movimento, pois ela muda a cada momento. Tudo isso acontece simplesmente porque acostumamos com isso. A forma mais fácil de perceber isso é através da respiração. A respiração é algo biológico e não precisamos prestar atenção para que ela aconteça.

É impossível respirar no passado ou no futuro, mas acreditamos que sim

Por conta disso, ela varia de acordo com as necessidades biológicas também. Se precisar fugir de algo, ela se tornará acelerada e curta ou pode até não acontecer, para que consiga correr o mais rápido possível, da mesma forma que quando está relaxado, sua respiração se torna lenta e profunda. Não precisamos estar atentos a isso, pois ela modula automaticamente de acordo com nossas necessidades. Porém, existe uma limitação nessa regulação, que é sua capacidade respiratória. Não dá para comparar a capacidade respiratória de um atleta com um sedentário, correto? Isso acontece porque o corpo se adapta as necessidades de acordo com a demanda. Isso é conhecido como condicionamento. De um modo geral um idoso não precisa ter um condicionamento para sair correndo igual um desesperado todo o dia, da mesma forma seria muito estranho uma criança que não consiga fazer isso.

Só vamos ter noção de nosso condicionamento quando em algum momento precisarmos dele e não estiver lá. Só assim nos damos conta, de que precisamos tomar providências quanto a isso. O grande problema disso é que muitas vezes, não vamos ter tempo para ter o condicionamento necessário. Afinal de contas isso exige tempo. Como é algo que não considerávmos necessário, simplesmente deletamos de nossas necessidades. Isso também é biológico e serve para minimizar o gasto de energia. Porém, como estamos reagindo intensamente cada momento acabamos não tendo nossas necessidades atendidas e acabamos perdendo nossa verdadeira autonomia. Acabou de descobrir o seu modo automático. Comer, andar, tomar banho e respirar se tornam práticas automatizadas, pois já acostumamos com elas.

Podemos ter mais atuonomia diante do caos. É só estarmos preparados para ele

Não precisamos viver diante da sorte e nem através de pensamentos positivos de que tudo vai dar certo e se não deu é porque ainda não terminou. Podemos, simplesmente, nos preparar para o que for acontecer diante de nossas projeções e necessidades. O “estar preparado” acontece quando você se sente confiante e seguro diante das adversidades, independente se ela vai acontecer ou não. Na verdade, não importa muito o que vai acontecer mas o quanto se sente pronto para o que der e vier. Essa atitude conhecemos como coragem e não tem nada a ver com enfrentar um leão com as próprias mãos, mas com a atitude de seguir em frente independente da dificuldade. É uma projeção mental apenas e não um ato físico da mesma forma que o futuro. Vá desenvolvendo essa atitude de acordo com seus limites e aos poucos se desafie um pouco mais (curiosidade). Com o tempo, isso se tornará um hábito bem natural e autêntico. Tudo vai depender do cuidado que irá prevenir dos problemas

A forma mais fácil de treinar essa atitude é através da respiração. A primeira coisa a se fazer é perceber como você respira, qual o padrão ventilatório que acontece no dia a dia. Como é sua respiração quando você acorda? Como ela é quando você está andando um pouco mais rápido ou subindo uns lances de escada? E quando você está almoçando? No banho? Quando está realizando alguma atividade física? Aprender a monitorar a forma como respira irá te ajudar a entender alguns eventos, sejam eles bons ou ruins. Depois de ter a clareza da variação de sua respiração diante das situações e a forma como se sente em cada uma delas, poderá aprender a modular sua respiração. Sim, você pode aprender a controlar sua respiração do jeito que quiser. Por exemplo, se sua respiração se torna ofegante e desconfortável ao subir alguns lances de escada, que tal treinar a subir poucos lances com mais frequência. Com o tempo, seu organismo aumenta a capacidade ventilatória e irá conseguir subir os mesmos lances, que antes cansava, sem sentir tanto.

Esse treino pode ser específico como no exemplo, mas também ela pode ser de forma mais generalizada. Você pode simplesmente manter sua atenção na respiração enquanto sobe os mesmos lances de escada que te cansam, porém, o que vai variar nesse momento é o ritmo como sobe, ou seja, sua respiração servirá como um termômetro para modular a velocidade e intensidade que sobe, será sua âncora, portanto quando começar a sentir o cansaço vai poder controlá-lo, o que seria praticamente impossível quando já estiver muito cansado. Isso faz com que comece a perceber as variações logo no início, onde pode tomar providências e não no final quando não se pode fazer mais nada. Com um pouco mais de experiência, você pode variar não só a intensidade e velocidade da ação, mas da respiração. Com isso, irá modular sua respiração de acordo com as necessidades de forma controlada

Caso não tenha disciplina para realizar algo por conta própria, a melhor forma de treinar é em um grupo regular. Realizar atividades em um grupo gera compromisso e um motiva o outro. Recomendo que experimente todos e encontre aquele que você mais se sente confortável. Dependendo do seu perfil, uma ótima opção é a arte marcial. A arte marcial é diferente de esportes de luta, pois esse é um tópico da arte. Ela abrange mais as atitudes e comportamentos do que a performance. Um exemplo é o Karate, uma arte marcial japonesa que para muitos é apenas a habilidade de dar socos e pontapés eficientes. Por trás desse treinamento físico, existe o desenvolvimento humano, esse sim poucos conseguem atingir. A variação na intensidade do treino exige que o corpo crie habilidades de equilíbrio constante. Movimentos rápidos e lentos de forma intencional geram auto-controle e autonomia. Quando o foco se torna a respiração e o próprio corpo e não o adversário, daí o treinamento começa a se tornar para a vida toda

A vitória não está em vencer o outro, mas a si mesmo

Yasutaka Tanaka

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